Fernando Burjato, 2023 Particular Gallery
Fernando Burjato
27 de março de 2023
 

Série Casa-Vão

Desvio, obra modular, Série Casa-Vão, 2022, Concreto e aço corten, 18 x 22 x 5,5cm

Nossa língua, o que significa nosso modo de sentir e dizer esse mundo, até então inóspito, quase hostil - tanto que nosso primeiro gesto, talvez filosófico, ao nascer seja o berro do espanto.

Até que tudo comece a amainar, as coisas passam a nos ser nomeadas, e assim, podemos nos abrigar nela. Como nas primeiras linhas de "Cem anos de solidão", do colombiano Gabriel García Marquez, que nos fala de um mundo que se dava a partir do momento que apontamos os dedos e damos nomes às coisas. O mundo pode ser, finalmente, casa.

Aos mais sensíveis, os artistas sobretudo, a tentativa de repor isso são várias. Parece sempre esse o desafio da linguagem (seja a mais literal ou a mais geométrica), dar-nos guarida. Muitas vezes das quais nem sabíamos precisar e está reposto o espanto. Como nascer na frente da obra.

CASA-VÃO. O uso proposital do hífen, que em nossa sintaxe, marca a indissociação dos dois significantes, literalmente impõe (em peça e título) o atravessamento como fundamento do que também acolhe. Artimanhas da nossa bela gramática que, onde a emoção corrige a regra, o geométrico acusa.

Marina Rodrigues nesta nova série lança mão de dois elementos líricos de topológica comunhão: a "emocionalização" de sua geometria, o rasgo de uma viga ao concreto, que se não o estetiza, ao menos nos devolve a lucidez de que o trauma (o corte, o atravessamento) é parte constitutiva inclusive do que compõe, e também abriga. É a incorporação do corte, da perfuração como fundamento da estrutura. Não é só sensibilizar, é co-mover.

Flávio Morgado (Poeta, editor da Revista A Palavra Solta e artista-trabalhador)

"Marina Rodrigues nesta nova série lança mão de dois elementos líricos de topológica comunhão"


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Marina Rodrigues

Nasceu em Piracicaba interior de São Paulo em 1988, atualmente vive e produz na capital.

Marina Rodrigues se encontrou na interseção de duas linguagens, transitando entre a joalheria e às artes, como quem apreende a sutileza de um trabalho de design e o amplia em uma nova visada sensível e estrutural ao mesmo gesto que traduz em telas, esculturas e site.

Sua pesquisa aprofunda uma geometria que propõe um diálogo com o entorno: Marina tangencia o espaço urbano, investiga sua estética cinza, seus tons densos, sem abrir mão de um desdobramento geométrico que nos devolve a eventual austeridade da cidade em uma ressignificação dessa beleza. Seu caminho passa dessa geometria sensível a uma geometria crítica: a cidade e sua política, a diluição individual, a convocação ao coletivo. A cidade que suas obras tragam, nos traduzem alguma delicadeza ainda possível.

O desdobramento de sua poética geométrica mantém sua integridade artística em diferentes suportes: a identidade de sua Tape Art, a topologia de suas esculturas, assim como as propostas de suas telas e o alcance de seus murais têm nessa obstinação (e nesse sentido, também se aproxima de seus referenciais, Amilcar de Castro e Franz Weissmann) a linha que os une: um trabalho que caminha com a fluidez consistente, de quem não se omite à experimentação, mas não se exime de seus princípios estéticos.

Por Flavio Morgado, curador.